Ele X Ela na cidade sem fim

março 10, 2009 at 4:14 am (Contos)

Ele estava inquieto. Ficava balançando a perna sem parar, como num tic, sentado em sua nova cadeira estilo escritório – bem mais confortável que a outra – em frente ao computador, mãos totalmente apoiadas sobre o teclado, digitando qualquer coisa no orkut, google ou tanto faz, como se através de uma palavra na tela do computador pudesse encontrar aquela parte vazia, aquela que ele tinha perdido já faz um tempo, mas não se lembrava mais do que era e nem sequer percebia que toda aquela inquietação tinha tudo a ver com aquele episódio há uns….um ano e dois meses atrás….acho que é isso.

Ela finalmente resolveu arrumar seu quarto, como numa metáfora para arrumar sua vida. Acontece que no meio a tanta bagunça de um ano atrás, existia naquele quarto um cantinho, menos de 30 cm quadrado, que guardava seu passado. Ajeitando as roupas para guardar, ela olhou para o lado e viu a pequena caixinha. Como se o passado estendesse o braço para fora da caixinha, ela segurou sua mão e não pode evitar de dar uma espiadinha, mesmo que isso ainda a machucasse. Abriu a caixinha de passado. Lá dentro estavam as cartas dele.

Ele resolveu que não teria nada de útil na internet mesmo. Então colocou uma musica de seu cantor japonês preferido e se deitou na cama. Braços cruzados sob a cabeça, pernas esticadas. Enquanto olhava para o teto, um suspiro. Que puta nostalgia! Fazia tempo que não ouvia essa musica desse jeito. A última vez foi quando….ela ainda estava aqui. O passado começou a surgir no teto e numa epifania, todos os momentos que aquela musica trazia foram se projetando no quarto. Com seus olhos fechados, ele deu um leve sorriso.

Ela fechou os olhos. Deu um suspiro longo. Tomou coragem. E abriu a primeira carta. Era a segunda. Sorriu um pouco. Era engraçado o jeito que ele escrevia. Um tanto exagerado. Gostou da intimidade com que, já na segunda carta, ele escrevia também. Como se pertencessem um ao outro há muito tempo. Leu os versos que ele copiara. Um em especial deu uma pontada em seu peito e, sorrindo, ela começou a chorar.

Ele estava desfrutando, mais uma vez, seu momento nostálgico. Até que aquela musica em especial começou a tocar. Lembrou-se de momentos bobos que na época não dava tanto valor. Lembrou-se de quando eles dançaram valsa naquele espaço, com a melodia da lua. Ele sorriu gentilmente, exatamente como a musica. E uma lágrima escorreu.

Ela sentiu um aperto muito, muito forte no coração. Já estava acostumada, é claro. E sabia que não havia nada que pudesse ser feito. Então resolveu se entregar à fantasia, que era uma maneira mais fácil e mais aconchegante e pelo menos diminuía um pouco o aperto no coração. Lembrou-se da vez que dançaram a canção da lua no quarto dele. E sorrindo, começou a abraça-lo em sua fantasia.

Ele se perguntou o que ela estaria fazendo agora. Depois lembrou-se que isso não importava mais. De qualquer jeito as coisas não seriam mais como antes. Não havia mais nada que pudesse ser feito. Mesmo assim aquele ambiente cheio de passado o comoveu. Um calor imenso formigou pelo seu corpo. A saudade o espetou bem no peito. Num gesto intuitivo ele começou a abraça-la, como nos velhos tempos.

Ela abraçava ele.

Ele abraçava ela.

Ela ficou alguns minutos sentindo todo aquele calor, toda aquela energia, imaginando se ele também estaria abraçando-a. Depois abriu os olhos. Se chocou um pouco com a realidade. E com a verdade e solidez que tinha cada móvel a sua volta. Resolveu que a realidade era mais importante. E foi tomar um banho.

Ele parou de abraça-la. A musica tinha acabado. E o sonho também. Levantou-se da cama, deu uma olhada no orkut e foi jantar.

Eles nunca souberam que estavam em sintonia nessa tarde. São coisas da vida…

 



 

Sin.to.ni.a (sin+tono+ia) sf 1 Igualdade de freqüência entre dois sistemas de vibrações.  2 Acordo mutuo, reciprocidade, harmonia.

 

 

 

 

 

 

Esta obra é exclusivamente  ficcional, qualquer semelhança com a realidade não passa de mera coincidência.


3 Comentários

  1. Fernanda disse,

    Muito bom! Vejo que cada vez mais está evoluindo, e claro, vejo que também já conhecia essa história, ou pelo menos os respectivos personagens.

  2. mãe disse,

    E pensar que bastaria somente um impulso, uma energia de ativação para pegar o telefone e discar aquela sequência de números tão conhecida e do outro lado estaria a voz tão amada…perdemos cada oportunidade nesta vida por não acreditarmos na nossa intuição…é uma pena! Quem sabe da próxima vez…

  3. irmão disse,

    desafio numero dois enviado no email. concordo com a fe e acho isso uma forma linda de registrar-se.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.