Dizem que as coisas são assim mesmo…
Dizem que as coisas são mesmo assim. A menina estava no ônibus, então ela não podia chorar, é claro. Foi assim que nos ensinaram. Não se deve chorar no ônibus. Mesmo porque não fazia o menor sentido, espichada do jeito que era. Alem de tudo não pode cair. Se acontecer de cair tem que levantar logo, senão você se estribucha. Mas quando agente era criança tudo podia. Chorar no ônibus e cair e ficar esperando que alguém te levantasse, era fácil. Só bastava chorar.
Mas a menina não podia chorar, nem ficar esperando que alguém a levantasse. Então passou a olhar as crianças. – É um segredo, toda a hierarquia do mundo se faz por meio do tamanho. Quando se é pequeno, tudo é grande. A porta, a luz, a parede, os livros. Mas a maior de todas é a mãe. E os grandes olham agente como inexperientes, por isso somos menos que eles – experientes. Daí fazem agente treinar: pra andar, pra levantar, pra sentar. Se treina pra ouvir, pra falar, pra ver. Daí começa o difícil, que é treinar pra ler. É aí que tudo começa, mas é fácil aprender e, apesar de tudo, agente é pequeno e não tem ninguém abaixo. Então vai lá, erra mesmo. Ninguém vai julgar, o máximo é ficar com dó e aí há de se ter uma raivinha. Mas passa. Então o tamanho aumenta e junto com o tamanho vem um negocio, ó desgraça da humanidade!- a idade. Ter 12 anos é diferente de ter 6. E daí tem que tomar cuidado pra não cair, porque senão outro negocio chamado orgulho vai fazer agente ficar pra baixo. E não é bom. As pessoas importantes nunca estão tristes. E todo mundo quer ser gente importante. Daí não pode ficar muito triste, não. Vá lá, pelo menos agente lembra um pouco de quando tinha 6, e deixa o orgulho de lado pra ficar com a mãe. Aí pode chorar. (Com mãe sempre pode chorar. Não precisa se preocupar com o orgulho porque ela era a única que sempre via agente chorar.) É aí que chega os 18 anos, e daí não tem jeito. Nao pode mais chorar e também não pode cair. O tamanho já é alto, e a idade é a última antes de virar adulto e fingir que não acredita mais naquelas baboseiras de criança. E daí alem do orgulho vem o respeito das pessoas. E já se está no topo da pirâmide. Todos supõe que, por causa do seu tamanho – e da idade, agente também finja que não é mais criança. Daí não adianta mais chorar pra quem for. Ta todo mundo no mesmo barco. (E seria humilhante pra você, se rebaixar ao nível dos pequenos, dos inexperintes, dos que choram, e perder o orgulho, que tanto se limou para conseguir). O máximo que eles podem fazer é dar uma força. Falar palavras que a humanidade estabeleceu que vão te fazer bem, e pronto. Ou então tem uns que chamam de realistas e eles dizem que as coisas são assim mesmo. -
Devaneios a parte. O caso é que a menina estava no ônibus e, como tinha 18 anos, não podia chorar, então olhou para as crianças, que podiam chorar, na esperança que alguma lagriminha escorresse por ela. Nada. Uma olhou-a triste (de baixo, é claro). Que será que aquela criança deve ter pensado? Outra, a menina viu, parecia que queria ser grande (a menina deu um risinho) ela andava toda pomposa com a boneca agarrada em um braço, se recusando a olhar pra cima, pro mundo dos grandes, mas ao mesmo tempo com a mão dada com a mãe. Foi aí que a triste menina nasceu de novo. -Digo nasceu no sentido literal mesmo.- Ela se viu na imagem da criança-que-andava-pomposa. E percebeu que não tinha mais 18 anos. Não era uma moça, por Deus! Ela mesma se denominava menina e menina era e menina sempre fora e menina sempre seria. Que critério ridículo classificar uma pessoa pela idade! A criança-que-andava-pomposa tinha 18 anos e ela, a triste menina, apenas 6. Nada mais importava. Ah não, o que ela queria mesmo era andar de mão dada com a mãe da criança. Não precisava ser a mãe dela, apenas tinha de ser uma mãe. Então ela correu pra casa, colocou o pijama, tirou as meias e se aconchegou nos braços de um sono gostoso.
mã disse,
março 11, 2009 às 2:00 am
e sonhou…e foi feliz…