Ele X Ela na cidade sem fim
Ele estava inquieto. Ficava balançando a perna sem parar, como num tic, sentado em sua nova cadeira estilo escritório – bem mais confortável que a outra – em frente ao computador, mãos totalmente apoiadas sobre o teclado, digitando qualquer coisa no orkut, google ou tanto faz, como se através de uma palavra na tela do computador pudesse encontrar aquela parte vazia, aquela que ele tinha perdido já faz um tempo, mas não se lembrava mais do que era e nem sequer percebia que toda aquela inquietação tinha tudo a ver com aquele episódio há uns….um ano e dois meses atrás….acho que é isso.
Ela finalmente resolveu arrumar seu quarto, como numa metáfora para arrumar sua vida. Acontece que no meio a tanta bagunça de um ano atrás, existia naquele quarto um cantinho, menos de 30 cm quadrado, que guardava seu passado. Ajeitando as roupas para guardar, ela olhou para o lado e viu a pequena caixinha. Como se o passado estendesse o braço para fora da caixinha, ela segurou sua mão e não pode evitar de dar uma espiadinha, mesmo que isso ainda a machucasse. Abriu a caixinha de passado. Lá dentro estavam as cartas dele.
Ele resolveu que não teria nada de útil na internet mesmo. Então colocou uma musica de seu cantor japonês preferido e se deitou na cama. Braços cruzados sob a cabeça, pernas esticadas. Enquanto olhava para o teto, um suspiro. Que puta nostalgia! Fazia tempo que não ouvia essa musica desse jeito. A última vez foi quando….ela ainda estava aqui. O passado começou a surgir no teto e numa epifania, todos os momentos que aquela musica trazia foram se projetando no quarto. Com seus olhos fechados, ele deu um leve sorriso.
Ela fechou os olhos. Deu um suspiro longo. Tomou coragem. E abriu a primeira carta. Era a segunda. Sorriu um pouco. Era engraçado o jeito que ele escrevia. Um tanto exagerado. Gostou da intimidade com que, já na segunda carta, ele escrevia também. Como se pertencessem um ao outro há muito tempo. Leu os versos que ele copiara. Um em especial deu uma pontada em seu peito e, sorrindo, ela começou a chorar.
Ele estava desfrutando, mais uma vez, seu momento nostálgico. Até que aquela musica em especial começou a tocar. Lembrou-se de momentos bobos que na época não dava tanto valor. Lembrou-se de quando eles dançaram valsa naquele espaço, com a melodia da lua. Ele sorriu gentilmente, exatamente como a musica. E uma lágrima escorreu.
Ela sentiu um aperto muito, muito forte no coração. Já estava acostumada, é claro. E sabia que não havia nada que pudesse ser feito. Então resolveu se entregar à fantasia, que era uma maneira mais fácil e mais aconchegante e pelo menos diminuía um pouco o aperto no coração. Lembrou-se da vez que dançaram a canção da lua no quarto dele. E sorrindo, começou a abraça-lo em sua fantasia.
Ele se perguntou o que ela estaria fazendo agora. Depois lembrou-se que isso não importava mais. De qualquer jeito as coisas não seriam mais como antes. Não havia mais nada que pudesse ser feito. Mesmo assim aquele ambiente cheio de passado o comoveu. Um calor imenso formigou pelo seu corpo. A saudade o espetou bem no peito. Num gesto intuitivo ele começou a abraça-la, como nos velhos tempos.
Ela abraçava ele.
Ele abraçava ela.
Ela ficou alguns minutos sentindo todo aquele calor, toda aquela energia, imaginando se ele também estaria abraçando-a. Depois abriu os olhos. Se chocou um pouco com a realidade. E com a verdade e solidez que tinha cada móvel a sua volta. Resolveu que a realidade era mais importante. E foi tomar um banho.
Ele parou de abraça-la. A musica tinha acabado. E o sonho também. Levantou-se da cama, deu uma olhada no orkut e foi jantar.
Eles nunca souberam que estavam em sintonia nessa tarde. São coisas da vida…
Sin.to.ni.a (sin+tono+ia) sf 1 Igualdade de freqüência entre dois sistemas de vibrações. 2 Acordo mutuo, reciprocidade, harmonia.
Esta obra é exclusivamente ficcional, qualquer semelhança com a realidade não passa de mera coincidência.
Sobre uma gosma.
A verdade é que ela não queria mais nada daquilo. Ela queria fugir. Tem vezes que agente quer mesmo fugir. O fato é que ela não suportaria mais ver aquelas pessoas, todas ruflantes e confiantes com o seu ser, que, sinceramente, naquele lugar era nada. Ela sabia que não era nada. Mas agente sempre tem que fingir ser alguma coisa pelo menos, porque se ela revelasse sua verdadeira forma – a gosma – todos iriam ter nojo e recusando fitarem um ser tão repugnante iriam fingir ignorar e pisar em cima –pisando em cima eles conseguiriam estabelecer suas supremacias, mas na verdade apenas estariam tentando buscar um caminho que não a dúvida de que toda aquela hegemonia não importava. E aí, quando essa duvida vem é fatal. Você se desequilibra um pouco da corda e só há duas coisas a serem feitas: ou cair ou se fixar em um novo ponto e continuar andando penitente com sua sombrinha na corda bamba. Acontece que se você cair (era o caso dela) ninguém vai te ajudar a voltar pra corda, uma vez que todos estão em cima da corda num tráfego constante e parar para ajudar implicaria ter que cair também, e ainda fazer pezinho pra você subir. E depois seria fácil, bastaria esticar a mão pra baixo e ajudar a alma caridosa a subir. O que mataria dois coelhos numa cajadada, porque a medida que se vê alguém lá embaixo percebe-se estar em cima de alguém, pelo menos, e aquilo que eles chamam de auto-estima é recuperado instantâneamente. Mas ninguém vai querer ficar embaixo para te ajudar. Por favor, não esqueçamos o fato de que somos todos humanos. -
Exceto ela, que era gosma. –Gosmas não tem pés para andar na corda bamba – Mas isso não importava muito porque Gosmas são nada menos que seres humanos que resolveram seguir o caminho da dúvida (Gosmas são curiosas) e caíram e ficaram por lá mesmo. E tudo bem porque no gráfico alturaXtempo, gosmas não fazem parte da escala dos homens, já que tem altura igual a dos vermes, 0 (ninguém, nem mesmo os vermes, consegue passar pra -1). No mundo das gosmas todo mundo é igual, se uma passa pra 1 então não é mais gosma, é gelatina. – Os homens estão mais ou menos na altura 10 do gráfico – . A população das gosmas é bem menor que a população dos homens, isso porque ninguém consegue agüentar por muito tempo ser gosma. Então vira gelatina pra depois virar plástico e depois vidro, depois madeira e por fim metal até chegar na altura dos homens. Mas ela não precisava disso porque era gosma disfarçada de homem. O problema é que quando ficava instável – ela era gosma composta por hidrogênio, que é instável na última camada – deixava-se parecer mais gosma que homem e isso ia excluindo-a do mundo dos homens até chegar a um ponto que ela não suportava mais ver tantos homens e nenhuma gosma e por isso preferia ficar sozinha, sem gosmas e sem homens. Acontece que era hidrogênio. Podia se ligar a todo mundo, mas estava sempre sozinha – instavel. Ela queria mesmo é se ligar a outro hidrogênio, pra ficar estável. Mas esse era o mundo dos homens. Ela teria que procurar na tabela periódica.
Dizem que as coisas são assim mesmo…
Dizem que as coisas são mesmo assim. A menina estava no ônibus, então ela não podia chorar, é claro. Foi assim que nos ensinaram. Não se deve chorar no ônibus. Mesmo porque não fazia o menor sentido, espichada do jeito que era. Alem de tudo não pode cair. Se acontecer de cair tem que levantar logo, senão você se estribucha. Mas quando agente era criança tudo podia. Chorar no ônibus e cair e ficar esperando que alguém te levantasse, era fácil. Só bastava chorar.
Mas a menina não podia chorar, nem ficar esperando que alguém a levantasse. Então passou a olhar as crianças. – É um segredo, toda a hierarquia do mundo se faz por meio do tamanho. Quando se é pequeno, tudo é grande. A porta, a luz, a parede, os livros. Mas a maior de todas é a mãe. E os grandes olham agente como inexperientes, por isso somos menos que eles – experientes. Daí fazem agente treinar: pra andar, pra levantar, pra sentar. Se treina pra ouvir, pra falar, pra ver. Daí começa o difícil, que é treinar pra ler. É aí que tudo começa, mas é fácil aprender e, apesar de tudo, agente é pequeno e não tem ninguém abaixo. Então vai lá, erra mesmo. Ninguém vai julgar, o máximo é ficar com dó e aí há de se ter uma raivinha. Mas passa. Então o tamanho aumenta e junto com o tamanho vem um negocio, ó desgraça da humanidade!- a idade. Ter 12 anos é diferente de ter 6. E daí tem que tomar cuidado pra não cair, porque senão outro negocio chamado orgulho vai fazer agente ficar pra baixo. E não é bom. As pessoas importantes nunca estão tristes. E todo mundo quer ser gente importante. Daí não pode ficar muito triste, não. Vá lá, pelo menos agente lembra um pouco de quando tinha 6, e deixa o orgulho de lado pra ficar com a mãe. Aí pode chorar. (Com mãe sempre pode chorar. Não precisa se preocupar com o orgulho porque ela era a única que sempre via agente chorar.) É aí que chega os 18 anos, e daí não tem jeito. Nao pode mais chorar e também não pode cair. O tamanho já é alto, e a idade é a última antes de virar adulto e fingir que não acredita mais naquelas baboseiras de criança. E daí alem do orgulho vem o respeito das pessoas. E já se está no topo da pirâmide. Todos supõe que, por causa do seu tamanho – e da idade, agente também finja que não é mais criança. Daí não adianta mais chorar pra quem for. Ta todo mundo no mesmo barco. (E seria humilhante pra você, se rebaixar ao nível dos pequenos, dos inexperintes, dos que choram, e perder o orgulho, que tanto se limou para conseguir). O máximo que eles podem fazer é dar uma força. Falar palavras que a humanidade estabeleceu que vão te fazer bem, e pronto. Ou então tem uns que chamam de realistas e eles dizem que as coisas são assim mesmo. -
Devaneios a parte. O caso é que a menina estava no ônibus e, como tinha 18 anos, não podia chorar, então olhou para as crianças, que podiam chorar, na esperança que alguma lagriminha escorresse por ela. Nada. Uma olhou-a triste (de baixo, é claro). Que será que aquela criança deve ter pensado? Outra, a menina viu, parecia que queria ser grande (a menina deu um risinho) ela andava toda pomposa com a boneca agarrada em um braço, se recusando a olhar pra cima, pro mundo dos grandes, mas ao mesmo tempo com a mão dada com a mãe. Foi aí que a triste menina nasceu de novo. -Digo nasceu no sentido literal mesmo.- Ela se viu na imagem da criança-que-andava-pomposa. E percebeu que não tinha mais 18 anos. Não era uma moça, por Deus! Ela mesma se denominava menina e menina era e menina sempre fora e menina sempre seria. Que critério ridículo classificar uma pessoa pela idade! A criança-que-andava-pomposa tinha 18 anos e ela, a triste menina, apenas 6. Nada mais importava. Ah não, o que ela queria mesmo era andar de mão dada com a mãe da criança. Não precisava ser a mãe dela, apenas tinha de ser uma mãe. Então ela correu pra casa, colocou o pijama, tirou as meias e se aconchegou nos braços de um sono gostoso.