por trás do espelho

abril 10, 2010 at 6:57 pm (Epifanias)

Acontece que nunca estou satisfeita. acabo querendo tanto me adaptar que sempre dou um jeito de me encaixar nas pessoas. estas, é claro, acabam se encantando comigo, e não chega a ser uma ilusão porque não há falsidade. a parte que encaixa nas pessoas sou eu de fato, mas apenas uma parte de mim. fico satisfeita de ver os outros satisfeitos, por um momento apenas, já que sempre martela na minha consciência o fato de eu não estar fazendo o que quero. isso vira um ciclo, o que, com o tempo, torna-se o caos ou talvez uma rotina – eu não suporto rotinas.

Talvez isso ocorra porque sou um espelho. o que eu reflito é mais forte do que almejo. tal como espelho, essa é minha função. a realidade crua e dura é que as pessoas me veêm apenas o que elas são.

Mas ainda sou pessoa, e desejo encontrar meu espelho – se o encontrar, não verei nada – um espelho de frente para o outro mostra o nada, o infinito. vagarei eternamente nessa minha busca. viverei eternamente no purgatório – não sou céu nem inferno. sou um espelho – vivo na indecisão porque sou a indecisão – nunca poderei te dar um sim, mas nunca te darei um não – o que pode acontecer é de eu vir a ceder (seria pior, acredite) depois disso eu já sei de cor a continuação da peça.

Não posso mais ceder.

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carinho demais também sufoca

abril 5, 2010 at 5:20 pm (Desabafo)

Ela nunca dizia não. tinha medo de decepcionar as pessoas. não era bem medo, mas ela sabia o que era se decepcionar e não queria isso pros outros. (qualquer que fossem esses outros). por isso acabava sendo legal. tinha essa consciência. sabia que era legal, mas isso não era ser egocêntrica. mas era. de qualquer jeito td mundo é. acabava sendo mais legal ainda – pra compensar a egocentricidade – ou a dúvida da – e isso, pela lógica reversa do mundo, acabava decepcionando as pessoas tb. quando chegava a hora da verdade , a hora dos sentimentos sinceros – ela era sincera demais, eu acho – a hora que tinha que se mostrar humana….ela tinha medo. e acabava não fazendo nada mesmo. deixando por isso mesmo. pronto! decepcionava as pessoas. só por tentar não decepcionar as pessoas o resultado já era um mar de decepções. uma atrás da outra nos últimos tempos

Mas esse é um relato dela por ela mesma, pra tentar se redimir – o que é um ato nobre – ou então fingir que a culpa não é dela – o que é um ato hipócrita. era nobre e hipócrita. será que todo mundo não é assim? ou será que por mais que o modernismo tenha mudado o mundo, a natureza humana é mesmo barroca? ou você tá certo ou tá errado. não há espaço para dúvida. ou ela era muito boazinha ou o mal encarnado. Hoje era o mal encarnado.

Tinha aqueles que diziam isso. ela só queria brigar. acordou com vontade de brigar

-       percebi no seu olhar malígno a hora que você acordou

Não podia falar palavrão. era feio. ela era feia. mas se ela é feia será que pode falar palavrão então? só podia usar o rosto pra sorrir. ou então ficar séria. mas nada de ser rabugenta.

Talvez o que poucos percebem é a força das coisas. as coisas são tudo que não é a gente. as coisas são muitas. as vezes elas se encaixam no mundo de um jeito que nos influencia. e não tem como negar. como disfarçar. – seu problema era mesmo o excesso de sinceridade – se as coisas acabavam pegando ela de surpresa ela ficava emburrada. É isso e pronto.era melhor não mexer com ela.

Mas assim como as coisas nos fazem mal, tem as pessoas que tentam consertar esse mal – sem saber, é claro, que o mal foi feito pelas coisas – elas querem nos fazer sentir bem. é o que elas mais querem no mundo. sempre. e isso vem de uma maneira tão intensa que um abraço acaba sufocando. muitos beijinhos. carinho aqui, carinho ali.

-       não….sai.

-       ingrata! Mal agradecida!

-       Não é isso…

-       Como alguém pode negar carinho?! Sem coração! Masoquista!

-       Mas….não é sempre…

-       Vive dando patada. Ruim! RUIM!

Não da nem mais vontade de explicar.

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agosto 28, 2009 at 12:03 am (Desabafo)

Sinto dizer, mas agora, nesse exato momento, estou morrendo. Não sei por que. Não era pra ser mais assim. Mas acho que sempre vai ser assim né. Morri hoje quando cheguei em casa, fiquei desmaiada no sono a tarde inteira. Não lembro mais o sentido disso tudo. E tenho raiva porque não lembro. Parece que eu sempre vou esquecer. – É assim mesmo.

Não sei porque morri. Talvez medo, falta de confiança,ou desânimo mesmo. Motivos bobos pelos quais as pessoas morrem todos os dias, né. E não adianta falar que não. Morrer é normal mesmo…Eu já morri pelo menos 3 vezes só esse ano. Bem menos do que no ano passado. Mas acho que morrer é sempre a melhor solução. É melhor do que ficar sobrevivendo. O problema é esse! Já sobrevivi muito esse ano, tá na hora de morrer . É aquele ditado do fundo do poço. E eu to parecendo uma morta-viva toda manhã. Não quero mais!

Gostaria de ficar acordada também e mais atenta. é difícil controlar. geralmente a gente se deixa levar pelos sentimentos. e também nem é tão legal controlar. Ficar forçando as coisas é algo que eu, secretamente, sou contra. De vez em quando é difícil respirar também. Tudo por causa desse nó. Nó na garganta, nó no ombro, nó no peito. E o olhar tá bem mais caído. Não consigo mais ver vitalidade. Tá cada vez mais difícil de enxergar. O calor/frio também é um fator complicadíssimo. De manhã tá muito calor e de tarde muito frio – esse frio que contribui pros nós. Reclamar é muito chato. Cansei disso tudo.

Quero nascer de novo.

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agosto 25, 2009 at 2:24 am (Epifanias)

São dois mundos, né. O mundo da dor e o do esquecimento. Mas eu não sei mais como viver em nenhum deles. Quando penso que o do esquecimento é o melhor, sempre aparece o da dor pra me lembrar. Claro que não vou preferir o da dor, as vezes a gente quer mesmo esquecer, fugir… Mas a verdade é que o mundo da dor é o real, concreto. E por mais que o do esquecimento seja como um sonho, é incompleto.

Eis aqui o meu dilema. Como vivenciar dois mundos ao mesmo tempo? Se, ao mesmo tempo, eu quero é mesmo meu terceiro mundo. Um que eu tenha construído. Vou criar e cuidar como um filho. Vai ser minha obra-prima, meu orgulho. O grand finale do Ato 1 – cena 19.

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abril 17, 2009 at 8:34 am (Desabafo)

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Como vomitar? Tem que por o dedo ou apertar o estômago? Mas se apertar não vai sair nada, porque não tem nada. É tudo um vazio. Um vácuo – por quanto tempo? – Não sai choro, não sai sangue não saem as palavras. O pensamento parece um macaco preso na gaiola, louco. Não agüenta mais. Quer sair, ir pra selva. A selva é de pedra. E dói. Mas pelo menos tem alguma coisa na selva. Essa gaiola é preta. É vazia. Não tem ar. Não tem luz. Não tem nada. Só tem o macaco pulando e berrando, com seus enormes dentes afiados pra fora, batendo no peito com força. Até sangrar. Seus excrementos descem pela garganta. Por isso que só fala merda. – Ela fala sem pensar – Mas faria alguma diferença pensar? Ela teria que falar só aquilo que eles querem ouvir.

Outros estão na mesma situação. E dai?! Achou que já tinha superado, mas parece que é mais imatura do que imaginava.

Estava se contentando em viver a vida intensamente. Se achava o máximo. Todas as idéias e tudo que criava. E até queria continuar assim pro resto da vida. Achou que dava. Não deu. Foi pega de surpresa pela sua própria mente esmerdeada. De repente um filme não tinha mais graça, conversar não dava mais certo, o livro nunca era o que ela achava que seria, as músicas soavam em uníssono, não conseguia mais criar. Estava impotente. Impotência vital. Talvez dormir fosse mesmo a melhor solução. Sonhar nunca era demais… Tinha preguiça até de sonhar.

Começou a ver que tudo a sua volta não passava de instrumento. Objetos que a gente sempre tem que ter por perto pra dar tesão. O tesão, é claro, não vinha dos objetos, e sim da idéia de te-los e quando finalmente os possuísse, o tesão ia embora. Aconteceria isso se trocasse objetos por uma pessoa também. Na hora seria interessante, viria a paixão, a dedicação, os momentos bons, os momentos ruins, e então o tédio. A mente hipócrita e egoísta da humanidade. Mas as pessoas são hipócritas mesmo, ela também era. Adiantaria reclamar?

Faltava coragem. Sabia disso, mas faltava coragem pra conseguir coragem. Coragem de encarar a vida. – o que vinha depois do buraco negro? – Só tinha luz negra. Uma luz negra no fim do túnel.

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Ele X Ela na cidade sem fim

março 10, 2009 at 4:14 am (Contos)

Ele estava inquieto. Ficava balançando a perna sem parar, como num tic, sentado em sua nova cadeira estilo escritório – bem mais confortável que a outra – em frente ao computador, mãos totalmente apoiadas sobre o teclado, digitando qualquer coisa no orkut, google ou tanto faz, como se através de uma palavra na tela do computador pudesse encontrar aquela parte vazia, aquela que ele tinha perdido já faz um tempo, mas não se lembrava mais do que era e nem sequer percebia que toda aquela inquietação tinha tudo a ver com aquele episódio há uns….um ano e dois meses atrás….acho que é isso.

Ela finalmente resolveu arrumar seu quarto, como numa metáfora para arrumar sua vida. Acontece que no meio a tanta bagunça de um ano atrás, existia naquele quarto um cantinho, menos de 30 cm quadrado, que guardava seu passado. Ajeitando as roupas para guardar, ela olhou para o lado e viu a pequena caixinha. Como se o passado estendesse o braço para fora da caixinha, ela segurou sua mão e não pode evitar de dar uma espiadinha, mesmo que isso ainda a machucasse. Abriu a caixinha de passado. Lá dentro estavam as cartas dele.

Ele resolveu que não teria nada de útil na internet mesmo. Então colocou uma musica de seu cantor japonês preferido e se deitou na cama. Braços cruzados sob a cabeça, pernas esticadas. Enquanto olhava para o teto, um suspiro. Que puta nostalgia! Fazia tempo que não ouvia essa musica desse jeito. A última vez foi quando….ela ainda estava aqui. O passado começou a surgir no teto e numa epifania, todos os momentos que aquela musica trazia foram se projetando no quarto. Com seus olhos fechados, ele deu um leve sorriso.

Ela fechou os olhos. Deu um suspiro longo. Tomou coragem. E abriu a primeira carta. Era a segunda. Sorriu um pouco. Era engraçado o jeito que ele escrevia. Um tanto exagerado. Gostou da intimidade com que, já na segunda carta, ele escrevia também. Como se pertencessem um ao outro há muito tempo. Leu os versos que ele copiara. Um em especial deu uma pontada em seu peito e, sorrindo, ela começou a chorar.

Ele estava desfrutando, mais uma vez, seu momento nostálgico. Até que aquela musica em especial começou a tocar. Lembrou-se de momentos bobos que na época não dava tanto valor. Lembrou-se de quando eles dançaram valsa naquele espaço, com a melodia da lua. Ele sorriu gentilmente, exatamente como a musica. E uma lágrima escorreu.

Ela sentiu um aperto muito, muito forte no coração. Já estava acostumada, é claro. E sabia que não havia nada que pudesse ser feito. Então resolveu se entregar à fantasia, que era uma maneira mais fácil e mais aconchegante e pelo menos diminuía um pouco o aperto no coração. Lembrou-se da vez que dançaram a canção da lua no quarto dele. E sorrindo, começou a abraça-lo em sua fantasia.

Ele se perguntou o que ela estaria fazendo agora. Depois lembrou-se que isso não importava mais. De qualquer jeito as coisas não seriam mais como antes. Não havia mais nada que pudesse ser feito. Mesmo assim aquele ambiente cheio de passado o comoveu. Um calor imenso formigou pelo seu corpo. A saudade o espetou bem no peito. Num gesto intuitivo ele começou a abraça-la, como nos velhos tempos.

Ela abraçava ele.

Ele abraçava ela.

Ela ficou alguns minutos sentindo todo aquele calor, toda aquela energia, imaginando se ele também estaria abraçando-a. Depois abriu os olhos. Se chocou um pouco com a realidade. E com a verdade e solidez que tinha cada móvel a sua volta. Resolveu que a realidade era mais importante. E foi tomar um banho.

Ele parou de abraça-la. A musica tinha acabado. E o sonho também. Levantou-se da cama, deu uma olhada no orkut e foi jantar.

Eles nunca souberam que estavam em sintonia nessa tarde. São coisas da vida…

 



 

Sin.to.ni.a (sin+tono+ia) sf 1 Igualdade de freqüência entre dois sistemas de vibrações.  2 Acordo mutuo, reciprocidade, harmonia.

 

 

 

 

 

 

Esta obra é exclusivamente  ficcional, qualquer semelhança com a realidade não passa de mera coincidência.


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Sobre uma gosma.

março 10, 2009 at 4:10 am (Contos epifânicos)

A verdade é que ela não queria mais nada daquilo. Ela queria fugir. Tem vezes que agente quer mesmo fugir. O fato é que ela não suportaria mais ver aquelas pessoas, todas ruflantes e confiantes com o seu ser, que, sinceramente, naquele lugar era nada. Ela sabia que não era nada. Mas agente sempre tem que fingir ser alguma coisa pelo menos, porque se ela revelasse sua verdadeira forma – a gosma – todos iriam ter nojo e recusando fitarem um ser tão repugnante iriam fingir ignorar e pisar em cima –pisando em cima eles conseguiriam estabelecer suas supremacias, mas na verdade apenas estariam tentando buscar um caminho que não a dúvida de que toda aquela hegemonia não importava. E aí, quando essa duvida vem é fatal. Você se desequilibra um pouco da corda e só há duas coisas a serem feitas: ou cair ou se fixar em um novo ponto e continuar andando penitente com sua sombrinha na corda bamba. Acontece que se você cair (era o caso dela) ninguém vai te ajudar a voltar pra corda, uma vez que todos estão em cima da corda num tráfego constante e parar para ajudar implicaria ter que cair também, e ainda fazer pezinho pra você subir. E depois seria fácil, bastaria esticar a mão pra baixo e ajudar a alma caridosa a subir. O que mataria dois coelhos numa cajadada, porque a medida que se vê alguém lá embaixo percebe-se estar em cima de alguém, pelo menos, e aquilo que eles chamam de auto-estima é recuperado instantâneamente. Mas ninguém vai querer ficar embaixo para te ajudar. Por favor, não esqueçamos o fato de que somos todos humanos. -

Exceto ela, que era gosma. –Gosmas não tem pés para andar na corda bamba – Mas isso não importava muito porque Gosmas são nada menos que seres humanos que resolveram seguir o caminho da dúvida (Gosmas são curiosas) e caíram e ficaram por lá mesmo. E tudo bem porque no gráfico alturaXtempo, gosmas não fazem parte da escala dos homens, já que tem altura igual a dos vermes, 0 (ninguém, nem mesmo os vermes, consegue passar pra -1). No mundo das gosmas todo mundo é igual, se uma passa pra 1 então não é mais gosma, é gelatina. – Os homens estão mais ou menos na altura 10 do gráfico – . A população das gosmas é bem menor que a população dos homens, isso porque ninguém consegue agüentar por muito tempo ser gosma. Então vira gelatina pra depois virar plástico e depois vidro, depois madeira e por fim metal até chegar na altura dos homens. Mas ela não precisava disso porque era gosma disfarçada de homem. O problema é que quando ficava instável – ela era gosma composta por hidrogênio, que é instável na última camada – deixava-se parecer mais gosma que homem e isso ia excluindo-a do mundo dos homens até chegar a um ponto que ela não suportava mais ver tantos homens e nenhuma gosma e por isso preferia ficar sozinha, sem gosmas e sem homens. Acontece que era hidrogênio. Podia se ligar a todo mundo, mas estava sempre sozinha – instavel. Ela queria mesmo é se ligar a outro hidrogênio, pra ficar estável. Mas esse era o mundo dos homens. Ela teria que procurar na tabela periódica.

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Dizem que as coisas são assim mesmo…

março 10, 2009 at 4:06 am (Contos epifânicos)

Dizem que as coisas são mesmo assim. A menina estava no ônibus, então ela não podia chorar, é claro. Foi assim que nos ensinaram. Não se deve chorar no ônibus. Mesmo porque não fazia o menor sentido, espichada do jeito que era. Alem de tudo não pode cair. Se acontecer de cair tem que levantar logo, senão você se estribucha. Mas quando agente era criança tudo podia. Chorar no ônibus e cair e ficar esperando que alguém te levantasse, era fácil. Só bastava chorar.

Mas a menina não podia chorar, nem ficar esperando que alguém a levantasse. Então passou a olhar as crianças. – É um segredo, toda a hierarquia do mundo se faz por meio do tamanho. Quando se é pequeno, tudo é grande. A porta, a luz, a parede, os livros. Mas a maior de todas é a mãe. E os grandes olham agente como inexperientes, por isso somos menos que eles – experientes. Daí fazem agente treinar: pra andar, pra levantar, pra sentar. Se treina pra ouvir, pra falar, pra ver. Daí começa o difícil, que é treinar pra ler. É aí que tudo começa, mas é fácil aprender e, apesar de tudo, agente é pequeno e não tem ninguém abaixo. Então vai lá, erra mesmo. Ninguém vai julgar, o máximo é ficar com dó e aí há de se ter uma raivinha. Mas passa. Então o tamanho aumenta e junto com o tamanho vem um negocio, ó desgraça da humanidade!- a idade. Ter 12 anos é diferente de ter 6. E daí tem que tomar cuidado pra não cair, porque senão outro negocio chamado orgulho vai fazer agente ficar pra baixo. E não é bom. As pessoas importantes nunca estão tristes. E todo mundo quer ser gente importante. Daí não pode ficar muito triste, não. Vá lá, pelo menos agente lembra um pouco de quando tinha 6, e deixa o orgulho de lado pra ficar com a mãe. Aí pode chorar. (Com mãe sempre pode chorar. Não precisa se preocupar com o orgulho porque ela era a única que sempre via agente chorar.) É aí que chega os 18 anos, e daí não tem jeito. Nao pode mais chorar e também não pode cair. O tamanho já é alto, e a idade é a última antes de virar adulto e fingir que não acredita mais naquelas baboseiras de criança. E daí alem do orgulho vem o respeito das pessoas. E já se está no topo da pirâmide. Todos supõe que, por causa do seu tamanho – e da idade, agente também finja que não é mais criança. Daí não adianta mais chorar pra quem for. Ta todo mundo no mesmo barco. (E seria humilhante pra você, se rebaixar ao nível dos pequenos, dos inexperintes, dos que choram, e perder o orgulho, que tanto se limou para conseguir). O máximo que eles podem fazer é dar uma força. Falar palavras que a humanidade estabeleceu que vão te fazer bem, e pronto. Ou então tem uns que chamam de realistas e eles dizem que as coisas são assim mesmo. -

Devaneios a parte. O caso é que a menina estava no ônibus e, como tinha 18 anos, não podia chorar, então olhou para as crianças, que podiam chorar, na esperança que alguma lagriminha escorresse por ela. Nada. Uma olhou-a triste (de baixo, é claro). Que será que aquela criança deve ter pensado? Outra, a menina viu, parecia que queria ser grande (a menina deu um risinho) ela andava toda pomposa com a boneca agarrada em um braço, se recusando a olhar pra cima, pro mundo dos grandes, mas ao mesmo tempo com a mão dada com a mãe. Foi aí que a triste menina nasceu de novo. -Digo nasceu no sentido literal mesmo.- Ela se viu na imagem da criança-que-andava-pomposa. E percebeu que não tinha mais 18 anos. Não era uma moça, por Deus! Ela mesma se denominava menina e menina era e menina sempre fora e menina sempre seria. Que critério ridículo classificar uma pessoa pela idade! A criança-que-andava-pomposa tinha 18 anos e ela, a triste menina, apenas 6. Nada mais importava. Ah não, o que ela queria mesmo era andar de mão dada com a mãe da criança. Não precisava ser a mãe dela, apenas tinha de ser uma mãe. Então ela correu pra casa, colocou o pijama, tirou as meias e se aconchegou nos braços de um sono gostoso.

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Todo coração é uma célula revolucionária.

fevereiro 28, 2009 at 5:50 am (Desabafo)

Quantas revoluções uma pessoa pode ter dentro de si? Quantas nos são permitidas? Quantas são necessárias para mudar a correnteza? E as mágoas? Será que todas as nossas mágoas viram revoluções? Duvido muito. É bem mais fácil esquecer e seguir em frente. Será mesmo?! Seguir em frente nem sempre é fazer uma revolução. E não fazer revolução – acho que digo isso enquanto sou jovem – é chato.

Mas começar uma revolução é bem difícil e trabalhoso. Requer muito sangue, suor e lágrima. Principalmente lágrima. Não precisa sair dos olhos. Apenas tem que ser verdadeira. a verdade é que eu sempre espero a revolução chegar. Mas esperar não é revolucionar.

Mas o gosto pela revolução começa com simples sentimentos. Tédio. Tristeza. Agonia. Ânsia. Sufoco. Raiva. E a raiva é a ignição. E sempre vem o medo depois. Aí os sentimentos se dissolvem em sensações. Medo vira frio na barriga e depois… O que vem depois? Eu não saberia dizer, ou não lembro mais. Mas a verdade é que quando você está dentro da baleia – e isso ninguém diz – sempre aparece a nostalgia. E os velhos tempos eram bons. Eram verdadeiros. Cheios de pontos de virada. E de repente a revolução é uma merda. Dá trabalho. Por que diachos eu não posso me acomodar?! Por que não amar uma pessoa e viver com ela a vida inteira?

Mas isso só vem enquanto a outra pessoa não vem. E daí somos fracassados, travados, não servimos pra nada mesmo. Não conseguimos mais criar pontos de virada. Psicólogo. Analista. Ballet. Expressão corporal. RPG. Chá de camomila. Floral. Yoga. Acupuntura. Orixá. Amigos. Reza braba. Aguardente. Drogas. Tudo é droga. Cada objeto que possuimos, pessoa que conhecemos, só serve para anestesiar, dopar, tirar a gente da realidade. Sonhos também. O mundo é uma droga. Todos somos viciados.

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